
Quatro dos cinco mortos na ação policial e um dos carros atingidos (Imagem: Portal do Litoral PB)
Quando “tá lá o corpo estendido, no chão” e a Polícia chega, antes ou pouco depois de repórteres de rádio e televisão… Se o morto é jovem e pobre, foi “crivado de balas” em algum beco ou rua pobre onde mora gente pobre, autoridades presentes à cena do crime costumam antecipar às reportagens a suposta causa da morte. Na Paraíba é muito assim…
Antes mesmo de qualquer apuração, ainda bem longe da abertura de inquérito ou início de investigação formal, ainda que apenas formal, delegado, policial civil ou PM, se entrevistado ao vivo não se inibe em concluir que a vítima morreu por “envolvimento com drogas”, “ligações com o tráfico” ou qualquer outro suposto vínculo nessa linha.
Essas entrevistas geralmente estreiam em telas e sintonias pela manhã, vão a reprises ao meio-dia e começo de noite. No dia seguinte, novo homicídio deleta o interesse do ocorrido na véspera, mantendo-se, porém, a dinâmica e a agenda de cobertura superficial mesmo em telejornais que tentam fazer um jornalismo dito profissional e ético.
Como nesse meio sempre é possível piorar o que já é ruim, telejornal ou radiojornal paraibano que se diz jornalístico – ou se esforça para tanto – obriga-se a guerrear por uma audiência onde vez por outra perde para a concorrência que no mesmo horário acolhe e ecoa, com o defunto ainda quente, a versão que põe no finado a culpa pelo próprio fim.
Da mesma forma, ouvindo ou observando telejornal digno do nome ou policialesco de rádio ou tevê, a maior parte do público não se dói quando vê, ouve ou observa repórter e apresentador silentes e omissos diante de delegado, policial civil ou PM que, ao vivo, a priori acusa qualquer pobre fuzilado em comunidade ‘periférica’ de “envolvimento com drogas”.
Como se fosse pouco, sem contratar jornalistas para cobrir cidades-polo do interior, a mídia eletrônica paraibana resolveu usar delegados e afins como repórteres. Volta e meia, emissoras de rádio e tevê divulgam na íntegra áudios e vídeos produzidos por autoridades policiais mais afeitas à exposição midiática do quanto são competentes ou valentes contra “bandidos”.
CHACINA OU LEGÍTIMA DEFESA?
No dia 15 de fevereiro deste ano, cinco jovens e adultos com idades variando entre 17 e 26 anos foram mortos a tiros por seis policiais militares com os quais teriam se confrontado, após reagirem – também a tiros – a uma abordagem na Ponte dos Arcos, entre o bairro de Gramame (João Pessoa) e Mituaçu (Conde).
A versão de confronto e não de chacina, difundida pela Polícia Militar, só começou a ser confrontada quase dois meses e meio depois. Não pela imprensa. Em 30 de abril, foi divulgado laudo de perícia nos dois carros em que se conduziam os suspeitos, alvos de mais de 90 tiros disparados de fora para dentro dos veículos, segundo os peritos.
Entre a origem do caso e o documento pericial divulgado, nenhum portal de notícias, nenhum programa de rádio ou de tevê da Grande João Pessoa levantou, contestou ou procurou desvendar porque os feridos na dito tiroteio chegaram mortos ou quase todos mortos ao Hospital de Traumas da capital, para onde foram levados pela própria equipe PM envolvida no fato.
Mas esse e outros detalhes causaram estranheza e motivaram investigação do Ministério Público. Além do transporte de cadáveres e moribundos em viaturas policiais para o HT, carros tiroteados teriam sido levados da Ponte dos Arcos para a Central de Polícia da capital antes que a perícia chegasse ao local, onde também não teriam sido encontrados cartuchos vazios de balas disparadas.
A perícia mostrou que todos os ocupantes dos carros interceptados foram atingidos na cabeça por disparos feitos a curta distância, contrariando o argumento da troca de tiros. “Um modus operandi típico de execução”, destaca o documento pericial.
Com base nos indícios que vulneram a versão de tiroteio, de reação dos PMs a tiros que teriam sido disparados pelos abordados na Ponte, o MP pediu – e a Justiça atendeu e determinou – a prisão dos policiais. Todavia, autoridades e defensores dos policiais presos persistiram na versão segundo a qual eles apenas reagiram em legítima defesa contra criminosos que naquela data caçavam, para matar, suposto autor de feminicídio ocorrido no Conde.
No mais, portais noticiosos de Internet, programas policialescos de rádio e tevês que passaram a cobrir freneticamente as mortes da Ponte dos Arcos e seus desdobramentos, sempre baseados nas informações policiais, referiram-se seguidamente a ligações das vítimas com uma “facção criminosa”.
Nenhuma denominação da tal facção foi informada ao público. Com isso, os meios de comunicação da Paraíba que assim procederam deram formidável ajuda à versão policial que criminaliza e condena por antecipação, ainda sem qualquer apuração, pessoas como as que perderam a vida entre João Pessoa e Conde.
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Matéria ainda em apuração que pode atualizar informações relacionadas ao caso da Ponte dos Arcos




