
O Alumia recebeu o link de uma publicação que vinha ganhando espaço nas redes sociais, especialmente no Instagram. O post apresentava resultados atribuídos a um artigo científico intitulado “1-year risks of cancers associated with COVID-19 vaccination: a large population-based cohort study in South Korea”, assinado por Hong Jin Kim, Min-Ho Kim, Myeong Geun Choi e Eun Mi Chun.
De acordo com a postagem, o estudo — produzido na Coreia do Sul e publicado em 2025 pela revista Boesmark — sugeria uma relação entre as vacinas de mRNA contra a Covid-19 e o aumento do risco de câncer. A divulgação do conteúdo levantou preocupações e despertou o interesse do Alumia em verificar a veracidade das informações.
O artigo sul-coreano analisou dados de uma ampla base nacional de saúde, com registros coletados entre 2021 e 2023. Os autores relataram associações estatísticas entre a vacinação contra a Covid-19 e diagnósticos de alguns tipos de câncer dentro de um ano, como os de tireoide, pulmão, mama e colorretal.
O que é o mRNA?
Segundo a Pfizer Brasil, o RNA mensageiro (mRNA) — descoberto na década de 1960 e estudado para uso em vacinas desde os anos 1970 — atua como um manual genético. Ele transporta do DNA as instruções necessárias para a produção de proteínas específicas.
Ainda de acordo com a empresa, nas vacinas de mRNA, é utilizada uma versão sintética dessa molécula, que carrega a informação para que o corpo produza uma proteína inofensiva do agente infeccioso. Dessa forma, o sistema imunológico aprende a reconhecer o vírus e a desenvolver uma resposta de defesa eficaz, caso ocorra uma infecção real.
O que dizem os especialistas
Diante da amplitude do tema e do alarmismo provocado nas redes sociais, o Alumia buscou esclarecimentos junto a diferentes entidades científicas de saúde.
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou, em resposta ao Alumia, que todas as vacinas contra a Covid-19 são seguras e eficazes, ressaltando que não há evidências científicas que estabeleçam qualquer relação entre os imunizantes e o surgimento de câncer.
A entidade também destacou que o crescimento da carga global de câncer já era uma tendência prevista antes da pandemia. Segundo a Opas, esse aumento decorre de fatores como o envelhecimento populacional, o consumo de tabaco e álcool, a alimentação inadequada e a inatividade física — todos reconhecidos há décadas como principais determinantes da doença.
A Opas alertou que, mantidas as tendências atuais, a projeção é de que o mundo registre mais de 35 milhões de novos casos de câncer até 2050, o que representa um aumento de 77% em relação às estimativas de 2022. Mas não com relação direta com a vacinação.
Entrevista com especialista do Inca
O Alumia conversou com o médico João Viola, coordenador de Pesquisa e Inovação do INCA (Instituto Nacional de Câncer), para esclarecer dúvidas sobre o estudo sul-coreano e a segurança das vacinas de mRNA.
Alumia: O estudo sul-coreano é confiável e alinhado com o consenso científico global sobre vacinas de mRNA?
João Viola: Os dados de correlação apresentados não suportam a conclusão divulgada. Não há evidência científica sólida demonstrando associação entre vacinas contra a Covid-19 e maior incidência de câncer. O estudo não está alinhado com o consenso científico global.
Alumia: É plausível biologicamente que vacinas de mRNA causem câncer detectável em um período tão curto?
João Viola: Não há evidências que sustentem essa associação. A alegação não tem base científica robusta e não é compatível com o mecanismo de ação das vacinas.
Alumia: Se houver correlação nos dados, poderia ser um viés de detecção em vez de causalidade?
João Viola: Os dados não suportam conclusões causais e a correlação pode estar relacionada a vieses de detecção, como atrasos nos exames durante a pandemia.
Alumia: Há algum motivo para a alta notificação de casos de câncer após a vacinação?
João Viola: Os dados observacionais são insuficientes para estabelecer causalidade. A alta pode refletir retorno aos exames e diagnósticos após a pandemia, e não a vacinação.
Apuração e Texto: Deborah Nascimento e Caren Braga.




