
A repórter Ana Beatriz Rocha, na Ponte dos Arcos (Imagem: Reprodução/Vídeo de Reportagem/TV Cabo Branco)
Graças ao jornalismo investigativo da TV Cabo Branco exibido em abril deste ano na série ‘Eles tinham envolvimento…’, um laudo da perícia criminal do Estado, divulgado no dia 30 daquele mês, mostrou que podem ter sido vítimas de chacina – e não de um tiroteio com policiais militares – os cinco jovens mortos quase dois meses antes, em 15 de fevereiro, na Ponte dos Arcos (Vale do Gramame), na divisa entre os municípios de João Pessoa e do Conde.
O documento dos peritos, ao qual a reportagem da emissora teve acesso, abalou a então inabalável versão oficial sobre os fatos. Com investigações ainda em andamento, autoridades como o governador do Estado, o secretário de Segurança e o Comandante-Geral da PM manifestavam-se convencidos de que os policiais envolvidos reagiram em legítima defesa em um confronto com quem teria dado o primeiro tiro, disparado de dentro de dois carros onde se conduziam três adolescentes e dois adultos.
Apresentada pela repórter Ana Beatriz Rocha, da Rede Paraíba de Televisão, a série ‘Eles tinham envolvimento…’ revelou, com base no laudo pericial, que os policiais fizeram nada menos que 74 disparos contra um dos veículos e 18 contra o outro. “Todos os tiros partiram de fora para dentro dos carros, com exceção de apenas um disparo, efetuado de dentro para fora”, registrou o G1 Paraíba no mesmo dia 30 de abril, às 12h34, tendo como fonte o documento da perícia técnica. A matéria publicada pelo portal trouxe a assinatura da mesma jornalista que apresentou a série na tevê.
Os 90 tiros que atingiram latarias, parabrisas e vítimas não foram contados no local onde teriam sido disparados. Os cartuchos vazios de bala não foram recolhidos pelos peritos, que só puderam ver os veículos tiroteados na ‘Cidade da Polícia’, para onde os carros foram removidos, contrariando normas da própria Polícia que determinam a preservação do que possa ser uma cena de crime. Do mesmo modo, corpos agonizantes ou já sem vida foram indevidamente transportados para o Hospital de Trauma da capital, onde foi constatada que as mortes decorreram de balaços na cabeça, entre outros ferimentos graves provocados por armas de fogo.
Perderam a vida, durante a abordagem policial, Fábio Pereira da Silva Filho (26 anos), Emerson Almeida de Oliveira (25), Alexandre Bernardo de Brito (17), Cristiano Lucas (16) e Gabriel Cassiano de Sousa (17), este filho de Ana Gabriela, vítima de feminicídio ocorrido na manhã do 15 de fevereiro, no Conde. A morte da mulher foi atribuída a Gilmar Eloy Dionizio, preso dois dias depois. O suspeito seria alvo de uma vingança planejada pelos jovens e homens que se depararam com a blitz dos policiais do 5º Batalhão da PM, ainda segundo o relato policial.
Durante a investigação, seis policiais prestaram depoimento. Um deles confirmou que todos os agentes atiraram, mas não soube dizer quantos disparos efetuou. Já uma familiar de uma das vítimas relatou à Polícia Civil que uma testemunha ocular viu um policial com o pé sobre o pescoço de Cristiano Lucas, que estava com o rosto no chão, fora do veículo (detalhe em página reproduzida abaixo). Constatações de peritos e informações colhidas em depoimentos de testemunhas e familiares dos mortos à Polícia Civil levaram o Ministério Público da Paraíba a pedir a prisão dos seis PMs envolvidos.

Cinco deles foram presos em João Pessoa no dia 19 de agosto: soldado Mikhaelson Shankley Ferreira Maciel, sargento Marcos Alberto de Sá Monteiro, sargento Wellyson Luiz de Paula, sargento Kobosque Imperiano Pontes e o cabo Edvaldo Monteval Alves Marques. Um sexto membro da equipe da PM, o tenente Alex William de Lira Oliveira, teve sua prisão temporária convertida em preventiva porque teria fugido para os Estados Unidos.
Menos de três semanas depois do recolhimento dos cinco PMs ao xadrez do 1º Batalhão da corporação, em João Pessoa, o advogado Luiz Pereira, defensor dos acusados, conseguiu da Justiça uma ordem de soltura. Mas os presos se recusaram a deixar a cadeia usando tornozeleira. Também se negaram a ajudar a reconstituir o que ocorreu na noite de 15 de fevereiro, um sábado. No dia 17 deste mês, a Justiça resolveu liberá-los, desobrigando-os do monitoramento e da volta à Ponte dos Arcos.
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Apuração e texto: Gean Santos




