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VIOLÊNCIA
Publicado em 22/09/2025Atualizado em 22/09/2025

Jornalismo declaratório domina o noticiário sobre a morte de seis jovens por PMs no Conde

Notícia principal

Segundo João Azevêdo, não houve chacina, mas um confronto entre policiais e “marginais” (Imagem: Paraíba Online)

A cobertura jornalística sobre a morte de cinco jovens em 15 de fevereiro deste ano, entre João Pessoa e Conde, expôs fragilidades na checagem de informações e reforçou o padrão de jornalismo declaratório no noticiário sobre o caso produzido por veículos de comunicação da Paraíba.

Por jornalismo declaratório entenda-se aquele que resulta em notícia sem apuração alguma de quem a publica. Baseia-se tão somente no que afirmam as fontes. No caso da suposta Chacina do Conde, esse tipo de ‘jornalismo’ marca a quase totalidade do que foi publicado até aqui pela imprensa paraibana.

Para chegar à constatação de que declarações de autoridades do Estado prevaleceram sobre informações que poderiam ser levantadas em investigação jornalística, o Alumia selecionou e avaliou matérias publicadas em diversos sites informativos que noticiaram a suposta chacina e seus desdobramentos.

Neste segundo capítulo da série sobre erros e omissões de imprensa na cobertura de fatos violentos ou impactantes, foram selecionadas e analisadas matérias dos portais Polêmica Paraíba, Paraíba Online, do jornal A União e do site de Maurílio Júnior. Acompanhe os destaques, segundo o material coletado.

MAURÍLIO JÚNIOR

No dia 18 de agosto último, Maurílio Júnior publicou duas matérias sobre as mortes dos cinco jovens na Ponte dos Arcos. Ambas as publicações reproduzem informações e declarações oficiais. Uma do Ministério Público da Paraíba (MPPB); outra, do Comandante-Geral da Polícia Militar do Estado.

A primeira postagem, às 9h25 daquela data, tem como título ‘Policiais são presos por suspeita de envolvimento em chacina na Paraíba’. Seu conteúdo concentra-se no relato do MPPB sobre a prisão de seis policiais suspeitos de terem executado os jovens e não participado de uma troca de tiros.

A segunda matéria, publicada às 13h21, traz manifestação do coronel Sérgio Fonseca, comandante-geral da PMPB, sobre as prisões temporárias dos policiais. “Defendo-os até que se prove o contrário”, afirma o oficial, ressaltando a presunção de inocência como direito dos PMs denunciados.

A UNIÃO

No dia 19 de agosto, o site do jornal A União publicou, às 8h45, matéria sob o título ‘MPPB e polícias deflagram operação’. Refere-se à Operação Arcus Pontis, conduzida pelo Ministério Público, em parceria com as polícias Civil e Militar, para prender os PMs suspeitos da morte dos cinco jovens.

O jornal também se baseia em informações divulgadas pelo MPPB, mas não repete o ‘link’ dos mortos com alguma “facção criminosa”. Ao contrário do que ocorre em outros endereços de mídias digitais, nas quais vítimas de letalidade policial são vinculadas a gangues sem que ninguém – autoridade ou jornalista – informe o nome da tal quadrilha ou organização.

POLÊMICA PARAÍBA

No dia 10 deste mês, o Polêmica Paraíba postou às 6h25 a matéria intitulada ‘Justiça manda soltar policiais militares suspeitos da chacina de jovens no Conde’. Soltura condicionada a medidas cautelares: uso de tornozeleira eletrônica, afastamento de serviço, proibição de contato com familiares das vítimas e testemunhas, recolhimento domiciliar no período noturno, comparecimento mensal em juízo e restrições de deslocamento.

Polêmica informa ainda que um sexto policial, que estava fora do país, teve sua prisão temporária convertida em prisão preventiva, por não colaborar e não se apresentar no prazo determinado (não diz qual). O portal não fez apuração, apenas reproduziu o que divulgou o MPPB. E ainda aplica no seu texto, automaticamente, o carimbo de “grupo criminoso” que a PM pôs nos jovens mortos.

PARAÍBA ONLINE

‘João Azevêdo pede cautela nas investigações contra os policiais militares envolvidos na chacina do Conde’ é a ‘manchete’ do Paraíba Online postada às 16h43 do dia 19 de agosto. A julgar por esse título, o portal considera que os jovens foram executados e não baleados em um tiroteio, ou seja, alinha-se a quem considera chacina o que houve na Ponte dos Arcos em 15 de fevereiro deste ano.

Por sua vez, ainda segundo o Paraíba Online, apesar de ter pedido “a maior cautela no desenrolar das investigações”, o governador do Estado refere-se aos mortos como marginais. “Não se pode transformar, de repente, pessoas que, em função de uma operação, querer transformar essas pessoas em vítimas, quando na verdade não são”, ressalta João Azevêdo, arrematando:

– Na verdade, eram marginais que saíram com a missão de executar pessoas e se depararam com a Polícia.

EM RESUMO

Desde o anúncio das mortes dos cinco jovens na Ponte do Arcos, autoridades do Estado sustentam que houve confronto e legítima defesa. O Ministério Público da Paraíba viu indícios de chacina, contudo. Indícios documentados em laudo de perícia criminal, divulgado quase dois meses e meio após a pretensa execução ou o elegado tiroreio.

A imprensa vem publicando os dois entendimentos sem contestar nem investigar se um ou outro procede. É o que revela o monitoramento do noticiário iniciado semana passada pelo Alumia. Que ainda não encontrou vestígios de um mínimo esforço investigativo próprio em sites, portais e emissoras de rádio e tevê monitorados até aqui.

Uma apuração autônoma de mídia serviria, quando menos, para confirmar ou desmentir o que dizem o advogado Luiz Pereira, contratado pelos PMs denunciados, e dirigentes de órgãos que também defendem os denunciados, a exemplo do governador, do secretário Jean Nunes (Segurança Pública) e do comandante-geral da Polícia Militar do Estado.

Uma revelação jornalística sobre o que realmente houve naquele 15 de fevereiro de 2025 serviria ainda para confirmar ou desmentir o que dizem peritos criminais e o Ministério Público da Paraíba, que, como já exemplificado e demonstrado, encontraram evidências de um massacre e não de confronto entre PMs e os jovens mortos.

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Apuração e texto: Anna Athayde

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