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SAÚDE BUCAL
Publicado em 17/09/2025Atualizado em 17/09/2025

AGU pressiona, mas “odontologia biológica” segue ativa no TikTok

Notícia principal

Vídeos difundiam procedimentos pseudocientíficos sem respaldo técnico, ético ou legal – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Médicos e dentistas têm usado as redes sociais para difundir procedimentos sem respaldo científico sob o rótulo de “odontologia biológica” — uma pseudociência que sustenta a ideia de uma ligação direta entre dentes e órgãos do corpo.

Nessa lógica, os chamados “dentistas biológicos” convencem pacientes que problemas em determinados órgãos poderiam ser resolvidos por meio de intervenções odontológicas. Entre as alegações sem evidência científica, estão a retirada de restaurações de amálgama sem necessidade clínica, com o argumento de que o mercúrio presente nelas causaria danos à saúde.

Outro ponto defendido pela “odontologia biológica” é a extração de dentes sadios ou que necessitam apenas de tratamento endodôntico [canal], sob a falsa premissa de que esses dentes poderiam comprometer a saúde integral do indivíduo.

Esses profissionais também sustentam que dentes submetidos a tratamento de canal liberariam toxinas na corrente sanguínea capazes de provocar doenças graves, como câncer de mama, enfermidades autoimunes, problemas cardíacos e neurodegenerativos, incluindo Parkinson e Alzheimer.

Alegações falsas, sem respaldo científico

Em agosto deste ano, a Advocacia-Geral da União (AGU) publicou nota em seu site informando que, após ser notificado, o TikTok havia removido vídeos de médicos e dentistas que promoviam a chamada “odontologia biológica”. No entanto, o Alumia identificou que ainda circulam na plataforma diversos conteúdos defendendo essas teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU.

Em nota enviada à reportagem, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) reforçou que a “odontologia biológica” não possui comprovação científica. “Os conceitos defendidos pela ‘odontologia biológica’ colocam em risco a saúde bucal da população, enquanto sugerem tratamentos irregulares e ainda criam no imaginário da população ideias equivocadas contra a segurança de diversos protocolos odontológicos tradicional”, diz o órgão.

“O CFO esclarece que não há na literatura científica estudos clínicos randomizados, com ou sem meta-análises, que comprovem a relação entre os dentes e outros órgãos do corpo humano de forma direta, linear e bidirecional. Cumpre esclarecer que algumas doenças bucais, que apresentam inflamação crônica, podem estar relacionadas com diversas doenças sistêmicas como o diabetes e a endocardite bacteriana. Porém, nesses casos, os quadros clínicos independem de qual dente especificamente foi acometido pela infecção”, alerta o Conselho.

Teses e práticas da ‘odontologia biológica’

Entre as práticas defendidas pela chamada “odontologia biológica” está a extração de dentes saudáveis ou que poderiam ser preservados com tratamento de canal, sob a alegação — sem qualquer respaldo científico — de que esses dentes afetariam a saúde integral do paciente. Há registros de pessoas submetidas à remoção de múltiplos dentes sem indicação clínica convencional.

Outro ponto recorrente no discurso dos “dentistas biológicos” é a rejeição a implantes de titânio. Eles sustentam, mais uma vez sem evidências científicas, que o metal poderia intoxicar o organismo e até interferir em campos eletromagnéticos do corpo. Com esse argumento, pacientes são induzidos a substituir implantes em bom estado por peças de zircônia, de material cerâmico, em procedimentos desnecessários do ponto de vista clínico.

Vídeos que circulam no TikTok

A equipe de apuração do Alumia encontrou mais de 10 vídeos no TikTok que seguem promovendo teses sem comprovação científica, mesmo após a notificação da AGU. Somados, os conteúdos já acumulam mais de 2 milhões de visualizações.

Em um deles, que já ultrapassa 83 mil visualizações, um profissional afirma que obturações de amálgama liberariam gases venenosos de mercúrio. O vídeo ainda sustenta que apenas um “odontólogo biológico” poderia realizar a remoção, alegando que, caso contrário, o metal chegaria ao cérebro e provocaria intoxicação capaz até de impedir a pessoa de andar.

Em outro vídeo, que já acumula mais de 1,8 milhão de visualizações no TikTok, um profissional alerta sobre supostos riscos na remoção de restaurações de amálgama. “Já vi gente que tirou amálgama e nunca mais andou, nunca mais andou, porque tirou oito amálgamas de uma vez só. Aí tira, vai para o cérebro que engole e não anda mais. Então cuidado”, diz.

O discurso, sem qualquer respaldo científico, reforça a lógica da chamada “odontologia biológica”, que associa de forma equivocada a presença de amálgamas de mercúrio a quadros graves de intoxicação e doenças neurológicas.

Além de vídeos sobre procedimentos, há conteúdos que promovem cursos de “odontologia biológica”. Em um deles, o material promete aos interessados: “Odontologia Biológica significa tratar a raiz do problema, não apenas os sintomas. E isso exige uma visão integrada da saúde do paciente”.

Conforme previsto no artigo 44 do Código de Ética da Odontologia, o cirurgião-dentista não deve “fazer publicidade e propaganda enganosa”, assim como “anunciar ou divulgar títulos, qualificações, especialidades que não possua” e “anunciar ou divulgar técnicas, terapias de tratamento, área da atuação, que não estejam devidamente comprovadas cientificamente”.

O que mais explica e alerta o Conselho

O Conselho Federal de Odontologia explicou ainda que todos os cirurgiões-dentistas, devidamente registrados junto ao Sistema Conselhos de Odontologia, estão capacitados para a remoção das restaurações de amálgama, que pode ser realizada a partir de protocolos simples.

“Desta forma, sempre que houver indicação clínica, a troca dos materiais é completamente segura, tanto para os pacientes, quanto para os cirurgiões-dentistas; sem exigência de paramentação além daquela legalmente exigida para uso rotineiro nos consultórios odontológicos. O material removido deve ser descartado de forma correta pelos cirurgiões-dentistas, pela questão ambiental”, informa.

Embora hoje existam no mercado materiais estéticos, diz o CFO, a restauração em amálgama ainda continua em uso e tem indicações com ênfase em saúde pública, em função de sua longevidade clínica. A remoção de antigas restaurações deve ser realizada apenas quando houver algum tipo de comprometimento ou quando o paciente desejar realizar a troca por questões estéticas.

O CFO reforçou ainda que cirurgiões-dentistas não podem ultrapassar os limites de sua área de atuação. Além de configurar infração ética, a prática pode levar a responsabilização civil e criminal se causar danos à saúde dos pacientes. O órgão destacou ainda que a prescrição hormonal e o atendimento a pacientes oncológicos não estão entre as atribuições ou competências da Odontologia.

“A orientação do CFO à população é que os pacientes sempre procurem por cirurgiões-dentistas que atuem exclusivamente dentro dos parâmetros científicos da Odontologia e que ofereçam apenas os serviços das especialidades devidamente regulamentadas. É de fundamental importância que os pacientes recusem atendimentos dentro dos conceitos da ‘odontologia biológica’ para que lhes seja garantida segurança nos tratamentos odontológicos”, orienta.
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Apuração: Anna Athayde, Ana Sarah Cordeiro, Deborah Nascimento e Lívia Trajano

Supervisão e Texto: Ítalo Rômany

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